Montadoras sentem baque do mercado e ajustam capacidade de produção

    [Fonte: Automotive Business]

    Fábricas hoje estão configuradas para fazer 400 mil unidades a menos do que em 2019

    O mercado doméstico estagnado e o abastecimento irregular de componentes já refletiram na capacidade que a indústria local tem para produzir veículos. Do jeito que estão configuradas hoje, as linhas podem produzir 3,6 milhões de unidades/ano, cerca de 700 mil unidades a menos do que a capacidade instalada das fabricantes, 4,3 milhões de veículos/ano, volume possível apenas em cenário de plena produção em três turnos.

    Os dados da S&P Global, obtidos com exclusividade por Automotive Business, indicam também que a produção atual é ainda menor. As montadoras estão utilizando 63% dessa capacidade de 3,6 milhões de unidades. Ou seja: as vendas em níveis baixos na comparação com o desempenho comercial pré-pandemia, e falta de chips, levaram as fábricas a operar com uma ociosidade de 37%, sobre uma base de produção que já está menor. Em 2019, num cenário pré-pandemia, as linhas foram ajustadas para produzir cerca de 4 milhões de unidades/ano.

    “As montadoras tiveram de adequar sua capacidade produtiva para uma nova realidade do mercado brasileiro, que tem enfrentado dificuldades em termos de consumo, com o brasileiro perdendo renda e sem acesso a crédito. Sem contar as questões envolvendo o abastecimento de componentes eletrônicos, que agravou ainda mais o quadro”, disse o consultor Fernando Trujillo, da S&P Global.

    A redução da capacidade de produção também está ligada à estratégia das montadoras que versa sobre dar prioridade à produção de modelos mais rentáveis em detrimento daqueles que, antes, proporcionavam volume. Para Ricardo Bacellar, da consultoria Bacellar Advisory, volume de produção deixou de ser relevante a partir do momento que se passou a priorizar as margens.

    “É um sinal da retirada dos modelos de entrada do mercado. E os lançamentos recentes influenciaram também na configuração das fábricas, com adaptações feitas que não priorizam o volume, mas a redução do custo operacional das fabricantes. Produzir menos virou uma vantagem competitiva no atual cenário econômico”, disse o consultor.

    Ainda que as projeções da Anfavea, a associação que representa as montadoras no país, indiquem para um crescimento de 2% da produção deste ano ante 2022, o patamar da capacidade deverá se manter inalterado para os próximos anos, mesmo com uma possível melhoria do abastecimento de semicondutores já no ano que vem.

    “Vamos até 2030 com esta capacidade de produção”, disse Paulo Cardamone, consultor da Bright Consulting. “As projeções em termos de demanda no mercado brasileiro, no patamar em que está, não vão levar as montadoras a aumentarem o ritmo em suas linhas, que são flexíveis para tal. O ideal seria utilizar 80% da capacidade. O consumidor perdeu poder de compra e as fabricantes sabem disso”, completou.

    Preços altos e crédito caro preocupam montadoras de caminhões

    Se o acesso restrito ao crédito constitui hoje entrave às vendas maiores de veículos leves novos, no caso do veículos pesados novos os juros altos, elevação tíquete-médio e dúvidas a respeito da política econômica que será adotada no país nos próximos anos afastaram os frotistas das concessionárias. E isso também produzirá reflexos no ritmo de produção das fabricantes de caminhões.

    “Com a adoção do Euro 6, a demanda caiu porque houve antecipação de compra. As montadoras voltaram a produzir em fevereiro já com as linhas ajustadas a uma demanda menor. Falta de semicondutores também afeta a produção dos pesados, ainda quem em menor grau na comparação com a produção de automóveis”, contou Ronaldo Lima, gerente de forecast da Carcon Automotive.

    Uma esperança que vem do outro lado do mundo

    As exportações já foram apontadas como fundamentais para que as montadoras instaladas no país recuperem pelo menos parte da capacidade produtiva que perderam, mas vem da China a esperança de que a produção de veículos nacionais seja maior.

    Isso porque Great Wall e BYD, ambas montadoras de origem chinesa, já anuniciaram produção local de veículos nos próximos anos, o que deverá injetar algumas centenas de unidades na capacidade instalada no Brasil. Capacidade esta que, é bom lembrar, também foi reduzida com o fim da produção local da Ford e com a suspensão da produção da Caoa Chery em Jacareí (SP).

    “Estamos falando mais ou menos de uma perda de 350 mil unidades/ano na capacidade instalada, é bastante coisa. As montadors chinesas chegam para, em tese, retomarem essa capacidade perdida, mas é bom lembrar que estamos falando de montadoras de veículos elétricos, portanto de baixo volume”, disse Ricardo Bacellar.

    Produção de veículos no mundo deverá crescer em 2023

    Segundo a S&P Global, a produção mundial de veículos leves pode ter chegado a 81,8 milhões de unidades no ano passado. O resultado, se confirmado, representará melhoria de 6% em relação aos níveis de 2021, um ano marcado por restrições severas na cadeia de suprimentos, bloqueios debilitantes na China e o conflito Rússia-Ucrânia.

    Para 2023, a consultoria projeta um crescimento contínuo na produção, mesmo em um cenário que parece mais desafiador do que nos últimos 12 meses. A produção de veículos leves deverá crescer 4,0%, para 85 milhões de unidades, um resultado puxado pela produção de veículos elétricos na China, nos Estados Unidos e na Europa.

    Na China, ainda segundo a consultoria, o crescimento projetado na produção é de 1,1% ante 2021, somando 26,4 milhões de unidades. Espera-se que a Europa produza 16,6 milhões de unidades em 2023, acima dos 15,6 milhões estimados para 2022. Para a região da América do Norte, a pressão positiva em torno do reabastecimento e do atendimento da demanda reprimida fornece suporte para 2023, com a previsão definida em cerca de 15,1 milhões de unidades produzidas.